Resenha: Homens Imprudentemente Poéticos

Resenha: Homens Imprudentemente Poéticos
Por Valter Hugo Mãe.

Homens Imprudentemente Poéticos foi publicado pela primeira vez em 2016, em Portugal pela editora Porto. No Brasil foi lançado pela Editora Azul no final do mesmo ano. Livro de autoria de Valter Hugo Mãe que é indiscutivelmente o autor português de maior destaque da atualidade. Dono de uma escrita ímpar e poética, Hugo Mãe vem galgando seu lugar junto a grandes nomes premiados da literatura mundial.

Para a escrita dessa obra, Valter mudou-se para o Japão a fim de imergir na cultura local, para trazer mais realismo à narrativa.

Nos presenteia então com uma belíssima obra que se passa em um Japão antigo meio ficcional. A trama é repleta de misticismo, quase beirando ao realismo mágico. Carrega em si o embate de muitos valores antagônicos, como o amor e o ódio, a sensibilidade e a dureza, a ternura e a morte, o desespero e a esperança.

Narra a relação conflituosa de dois vizinhos odiosos que, secretamente juram se assassinarem um ao outro, em uma vila pobre ao pé do monte Fuji e situada aos arredores da floresta dos suicidas.

De um lado temos um ancião sensível e enlutado que luta contra a compleição da natureza, ao plantar um “mar” de flores em meio a beirada da floresta selvagem dos suicidas, com o intuito de amansar as feras e os espíritos malignos. Do outro lado temos um velho artesão amargurado, vivendo em extrema pobreza, que ganhara da vida um dom esquisito de prever notícias ruins do futuro a partir da morte de animais.

Durante a leitura, podemos acompanhar o crescimento das personagens, suas mudanças e aflorescimento dentro de suas complexidades. Um viúvo que vive a esperança de ter sua amada de volta enquanto vai amargando uma vida só. e um artesão desapiedado a vida e a natureza que vai se desabrochando em conformação e assim, ficando mais leve.

Itaro, é um exímio artesão de leques, aprendeu com o pai ainda muito jovem. É o provedor da casa, ocupada por Matsu, sua irmã cega, e Sra. Kame, a “empregada”.

Desconhece o que é o amor, é insensível e está sempre trabalhando para prover.

Quando criança tem uma premonição do futuro ao matar um peixe para o jantar. Previa o nascimento de uma irmã cega. Adota isso como hábito. Matar animais para enxergar o futuro.

Durante uma de suas visões, viu a morte da mulher de seu vizinho, a Sra. Fuyu. Julgou ser o certo informar Saburo, que não recebeu bem a notícia. Entendera que Itaro seria o responsável pela morte de sua amada.

Saburo, o oleiro, vizinho de Itaro, era um homem sensível e tenro. Muito apaixonado e dedicado à sua mulher, a Sra. Fuyu. Se apieda dos suicidas que se findavam na floresta. Quando sofre a perda da esposa, que morreu vítima de uma fera de “fumo”, decide plantar um jardim de flores em meio a floresta, para amansar a fúria das feras e dos espíritos. Também tinha o objetivo de fazer com que os suicidas mudassem de idéia ao ver a beleza do jardim. Outra motivação secreta, era a esperança de ver a senhora Fuyu voltando a caminhar naquele belo campo de flores.

Busca secretamente vingança contra Itaro, que havia previsto a morte de sua mulher. Se torna temerário e violento.

Nunca se ouvira de um amor que ressuscitasse. Mas as melhores lendas contavam de heróis que nunca desistiam. Saburo era assim. Recusava a desistir.”

Matsu, a irmã cega de Itaro, enxergava pela “boca”, vivia à beira do jardim, ocupada com orações, sempre aos cuidados da Sra. Kame. Tentava amalocer o irmão.

Na infância teve sua vida salva por Itaro, seus pais tinham a intenção de afogá-la para evitar o sofrimento de uma vida adulta em meio a deficiência.

A Senhora Kame é a criada da família. Trabalhava desde muito cedo para a casa, era praticamente pertencente ao lugar. Era uma mulher sem passado, havia chegado ao vilarejo sem compartilhar sua história com ninguém. Recebeu abrigo na casa dos pais de Itaro como esmola. Passou a vida toda cuidando da menina Matsu a qual era muito afeiçoada. Era muito fiel a casa e a família, por isso era igualmente respeitada

Suas rotinas diárias não mudavam. Todos os dias cedo pela manhã, Saburo cuidava do “mar” de flores, plantava mais e cuidava das que já tinha. Estendia em seu quintal o kimono da Sra. Fuyu para que ela contemplasse sua obra. Saburo claramente negava sua perda. Enquanto Itaro saía para a vila vender seus leques.

Faziam dias que nenhum leque era vendido, a comida ficava cada vez mais escassa à mesa. Em meio à situação extrema, Itaro toma uma decisão extrema. Decide que venderia Matsu, para que a menina cega não sofresse mais. Senhora Kame sofre muito com a decisão, mas ao fim concordou que foi o mais sensato a ser feito.

Os dois contam na vila então que a menina acabou se perdendo em meio a imensidão da floresta.

Itaro passa a ser assombrado por sua atitude. Sonha acordado com o pai o atacando.

Passado alguns dias os vizinhos insistem em fazer buscas para encontrar a menina Matsu. Saburo fez questão de participar do mutirão. Ao avistar uma fera de fumo, Saburo começa a desferir golpes com seu sabre, acerta por sua vez o kimono de Itaro. Os vizinhos inimigos sabiam que aquilo não havia sido um acidente. Saburo tinha a intenção de se vingar de Itaro. Porém, não o fez.

As equipes voltam para casa sem achar a menina que não estava perdida.

Itaro não consegue dormir e no meio da noite levanta-se com a intenção de se vingar de Saburo. Invade seu quintal e acaba com sua plantação de flores, também rouba o kimono da senhora Fuyu.

Ao acordar, Saburo fica arrasado. Não entendendo a dureza de seus vizinhos. Fecha-se cada vez mais, sozinho a sofrer e a beber.

“Aos aldeões, o oleiro declarou: quero mostrar o amor, lamento que só vejam morte.”

As alucinações de Itaro pioram cada vez mais. Fica insustentável viver. Decide procurar o velho sábio do vilarejo. Após avaliação, o velho receita para Itaro um confinamento no coração da terra, um buraco a sete metros do chão, onde deveria passar sete dias meditando. Desesperado, Itaro aceitou de prontidão.

Durante sua estada no buraco, uma fera gigantesca caiu ao seu lado. Itaro apavorado fica imóvel alguns dias, pede socorro mas não recebe ajuda, os aldeões acharam muito perigoso lhe alcançar um sabre. Itaro acaba aprendendo a conviver e a evitar a fera durante esses dias, em dado momento arrisca até mesmo acaricia-lá. Sete dias se passam e Itaro é retirado do buraco com alguma dificuldade, pois almejava salvar a fera junto de si. Quando retirado, não havia fera nenhuma, o que gerou grande estranhamento no povo.

Itaro lembra de sua última premonição, a que haveria de cegar.

Começa uma produção sem fim de leques para que quando o momento chegasse, não precisasse se preocupar com o trabalho. Em meio ao seu surto de criação, produz lindos leques, acaba se afeiçoando a todos e não os vende, mesmo para os vizinhos mais importantes e nem por valores mais altos.

Vai se afeiçoando à beleza da natureza. Decide devolver o kimono da amada de seu vizinho, que se afundava em sofrimento.

Itaro agora já era um velho menos amargo, começou a perceber o ambiente ao seu redor  e a entender a cegueira da irmã.

Para acabar com sua agonia, pega seu sabre e fura seus olhos, para que a cegueira não demorasse mais a chegar.

É amparado pela senhora Kame e por seu vizinho, Saburo.

Dois vizinhos uma vez odiosos, decidem deixar a vingança de lado por hora para viverem juntos sua velhice.

“A cegueira era, a cada instante, uma expansão. Itaro decidiu que assim explicaria às pessoas; sou homem que vê pela boca. E entendeu. Ao invés de caçar imagens, caçara ideias.”

Homens Imprudentemente Poéticos é uma obra belíssima. Tem uma escrita convidativa que prende o leitor. Tem como personagens principais dois vizinhos antagônicos, que se transformam durante o decorrer da obra.

Sentimos vivamente a dor do velho oleiro enlutado e sofremos com a miséria do velho artesão. No final vibramos com suas vinganças adiadas.

Na passagem do buraco, acompanhamos o capítulo mais bonito do livro. Onde o velho amargo acaba enfrentando sua fera interior, lutando para vencer seu medo, amansando aos poucos ao perceber a vida que bate à sua porta.

Hugo Mãe faz com que imerjamos na complexidade das personagens, dialogando com problemas atuais, como por exemplo o ódio infundado. Aborda como temas centrais a morte, o luto, a pobreza, a solidão e a solidariedade, o que faz com que a obra seja intensa e cativante. Vale a pena ser lida.


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Uma boa leitura e até a próxima resenha.